A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), por meio do Departamento de História, que congrega os Programas de Pós-graduação em História (PPGHIS) e o Mestrado Profissional em História (ProfHistória), tem a imensa satisfação de sediar a 12ª edição do Encontro Nacional dos Pesquisadores de Ensino de História (ENPEH), a ser realizada nos dias 11 a 13 de novembro de 2019.

Entendemos que o Mato Grosso, assim como o Centro-Oeste, atualmente tem sido uma das frentes de expansão e consolidação de pesquisas acadêmicas e cursos de pós-graduação com a temática do Ensino de História. Trazer o referido evento seria uma oportunidade de estreitar nossos laços com as diferentes instituições de ensino e pesquisa no campo no país e na América Latina. Cuiabá, como sede do XII ENPEH, significa um compromisso com a interiorização e ampliação das fronteiras para a nossa área, pois se tem a intenção de agregar as instituições de ensino públicas e privadas do Centro-Oeste e também Norte do Brasil na construção da proposta temática e organizadora do referido evento, dialogando com os demais espaços de formação e prática da pesquisa/ensino do país.

Além da UFMT, teremos a parceria da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), por meio do Curso de História e do Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória). A UNEMAT é uma instituição que realiza um trabalho árduo e responsável de interiorização do ensino superior em Mato Grosso e tem sido palco de importantes eventos na área, como o I Seminário do ProfHistória e o IV Encontro Estadual de Ensino de História, realizado em setembro de 2017, contando com mais de 400 inscritos.

A UFMT, além da infraestrutura de anfiteatro no Centro Cultural, com lotação de 300 lugares, dispõe no Instituto de Geografia, História e Documentação (IGHD) de 10 salas de aula e 2 auditórios – com equipamentos de multimídia. O Etrúria – Laboratórios de Estudos da Memória, Patrimônio e Ensino de História conta com duas salas de trabalho, com equipamentos, mobiliários e material de consumo. O departamento de História conta com um Laboratório de Prática de Ensino de História (LAPEHIS) para realização de reuniões de trabalho e montagem da secretaria do evento. A equipe da Secretaria de Tecnologia de Informação (STI) da instituição oferece suporte para criação do sistema de submissão de inscrições e recolhimento de taxas. O site demandará contratação de profissional especialista para sua execução.

O campus da UFMT, na cidade Cuiabá, dispõe de transporte interno para deslocamento dos visitantes e alunos e de Restaurante Universitário, com cobrança de taxa social de alimentação.

A Pró-reitoria de Cultura e Extensão (PROCEV), além de disponibilizar a infraestrutura do anfiteatro, irá promover eventos culturais e artísticos durante o evento para os participantes e visitas agendadas ao Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso (MACP), localizado no campus universitário.

O XII Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História: Territórios disputados: a produção de conhecimento no Ensino de História em tempos de crise configura-se como um evento que congrega pesquisadores de todo o Brasil e orienta-se pela disseminação do conhecimento como uma das formas possíveis de socializar o saber acadêmico, tornando-o instrumento de qualificação da formação humana. Esse encontro também apresenta o desafio de discutir de forma aprofundada, uma temática ainda pouco explorada, qual seja, a de pensar a questão de sua produção de pesquisa como constituinte de um campo de conhecimento.

A realização do XII ENPEH, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), decorre de indicação realizada pelos pesquisadores do Ensino de História reunidos em Assembleia da Associação Brasileira do Ensino de História, por ocasião do XII ENPEH, na cidade do Rio de Janeiro em setembro de 2017.

Ao decidir sobre a realização do XII ENPEH na UFMT, dá-se continuidade aos Encontros que se realizam no Brasil desde 1993, consolidando um debate sobre os opções teóricas e metodológicas das pesquisas realizadas em Ensino de História, na interface com a Educação e a História e ampliando-se para uma discussão que congregue o campo das políticas, demandas sociais e práticas curriculares.

Ao longo dos últimos 26 anos é possível observar um crescimento significativo no número de pesquisas, bem como na qualidade das mesmas, que nos autoriza a afirmar o Ensino de História como campo de produção de conhecimento. Observa-se, também, o crescimento do número de Grupos de Pesquisa cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq que afirmam em palavras-chave, linhas de pesquisa ou nos seus títulos, o ensino de História como tema ou objeto.

A criação, em 2014, do mestrado profissional em Ensino de História, em rede nacional tem estimulado  docentes a se integrar nos atuais 27 Programas de Pós-graduação em Ensino de História criados em diferentes estados do país e que têm contribuído para a qualificação em nível de mestrado de um número crescente de docentes  de História na educação básica, além de estar disponibilizando um expressivo número de trabalhos acadêmicos sobre o ensino de história em curto período de tempo, o que impacta o campo de conhecimento.

Ao analisar as investigações sobre o ensino de História produzidas no Brasil, foi identificado (ZAMBONI, 2005) que, até meados da década de 1980, além de serem em pequeno número, tinham seu espectro restrito à sala de aula, à história da disciplina História e ao uso do livro didático como recurso didático. A maioria destes estudos apresentava um caráter mais narrativo que analítico. Neste sentido, o livro Repensando a História, organizado por Marcos Silva (1984), foi uma exceção por indicar procedimentos metodológicos na área da pesquisa no ensino.

A partir da década de 1990, amplia-se a formação de pesquisadores que se dedicam a investigar a natureza do conhecimento histórico escolar e os seus desdobramentos como: os processos de aprendizagem, os recursos didáticos, as relações entre os sujeitos (alunos e professores) e as instituições culturais como os museus e as relações entre a memória e o ensino de História. O trabalho de maior destaque, no período, foi o da professora Elza Nadai (1992) que investigou a história do Ensino de História no Brasil, seu significado e sua abrangência. O mesmo tema foi investigado por Zamboni (2003) ressaltando que o Ensino de História, desde o século XIX, teve como objetivo a formação do cidadão e a afirmação de uma única identidade nacional. Os conteúdos ensinados estiveram fundamentados na transmissão de fatos históricos, no enaltecimento dos “heróis” e na comemoração de datas cívicas para a formação da consciência nacional. Assim, o Estado foi valorizado como gestor e controlador da Nação e seus dirigentes, como sujeitos históricos.

O reconhecimento do conhecimento histórico-escolar como uma área de formação e manutenção dos valores nacionais, das identidades, das memórias e, sobretudo como um dos pilares para o fortalecimento do poder, como destaca Cuesta Fernandez (1998), tem estimulado os estudiosos da História ensinada a estabelecer relações mais próximas entre a História e a Educação e outros campos do conhecimento como: Sociologia, Antropologia e Psicologia. Portanto, para se compreender a história ensinada é necessário considerá-la como um campo de investigação multidisciplinar. Os estudos de Finochio (1993), Chervel (1990), Ferro (1993), Nadai (1991), Goodson (1995), Abud (1998), Martins (2002), Dias (2004) e Freitas (2010), enveredaram por caminhos que recuperam a história da história ensinada e estabelecem relações com o estudo dos currículos escolares.

Além dos estudos sobre a história da disciplina, tem sido amplamente investigado o livro didático de História. Autores como Bittencourt (1993), Choppin (2000), Galzerani (1988), Munakata (1997,2004), Gasparello (2002), Miranda (2004), Miranda e Luca (2004), Monteiro(2009), Galzerani, Bueno e Pinto Junior (2013); Rocha (2013, 2015) o fizeram sob diferentes enfoques: a sua história, as memórias dos autores e professores, a produção e circulação, práticas de leitura, como formador de opiniões, como espaço de produção curricular e o panorama das pesquisas.

Os estudos empreendidos por Cerri (1999), Menezes (1992), Fiúza (2003), Napolitano (1999) sobre o uso da literatura, das imagens (fotografia, filmes, charges, desenhos, pinturas, propagandas), dos jornais, das músicas, do patrimônio arquitetônico, dos museus como fonte de investigação e como recurso metodológico em sala de aula ampliaram a concepção de Ensino de História.

As reflexões sobre educação e, em especial, sobre o ensino de história, foram enriquecidas com as contribuições de outros pensadores nacionais e internacionais a exemplo de Canclini (1997), Carretero (1987-1989), Charlot (2000), Rüsen (2001), Julia (2000), Schmidt (2002), Fonseca, (2003), Monteiro (2002, 2007), Gabriel (2003,2008), Oliveira (2006), Lucini (2007), Mesquita (2008), Rocha, Magalhães e Gontijo (2009), Monteiro e Penna,(2011), Goncalves et ali,(2012)  Monteiro et alii (2014), Gabriel e Leite (2015), Gasparello e Villela (2016). Estes pensadores apontaram a necessidade de se investigar as relações existentes entre categorias do conhecimento como saberes, memória, consciência histórica, identidade, cidadania, cultura e o ensino de história.

Nas diferentes instâncias em que pesquisadores e professores que se dedicam ao Ensino de História tem mantido intenso diálogo, a indissociabilidade entre História e Ensino é constantemente reificada com a afirmação do “mito do descompasso”, ou seja, um entendimento equivocado e essencializado sobre falácias e erros da história ensinada. Defendemos que as duas áreas possuem objetos de conhecimento distintos, mas indissociáveis em sua efetivação como ensino escolar e que produções originais e qualificadas são possíveis no contexto curricular escolar.

Pesquisadores de diferentes espaços geográficos têm evidenciado em suas pesquisas que a ciência pura não poderia ser ensinada aos escolares na forma como é produzida, pois não conseguiria ser compreendida na complexidade que é produzida. Para que a História possa ser ensinada, é necessário, portanto, a mediação didático-pedagógica.

Esta mediação, por sua vez, consiste na mobilização de elementos específicos que viabilizam a compreensão da história ensinada. Nesta relação estão implicados os saberes dos docentes, dos alunos, referências culturais que circulam no cotidiano e na sociedade mais ampla. Estão implicados, também, elementos de outras áreas do conhecimento, acumulados em suas trajetórias históricas, através de pesquisas e experiências realizadas como a psicologia, a pedagogia, a literatura e a antropologia, entre outras. Os professores que atuam no Ensino de História para que ele seja ensinável, consideram elementos dessas áreas do conhecimento. Esse movimento entre a área de referência e o campo do ensino ainda carece de mais pesquisas e reflexões que incidam em ações que ocorrem na sala de aula, seja através da formação inicial ou continuada de professores.

Assim, entende-se que para Ensinar História necessita-se conhecer para além da História ciência. Dialogar com as outras áreas, principalmente com aquelas que nos auxiliam a pensar a relação pedagógica entre conhecimento e aprendizagem, bem como conhecimento e ensino, nos parece imprescindível.

Ao nos referirmos ao campo da Educação, é pertinente, alertar que os cursos de licenciatura das diferentes áreas do conhecimento, assim como a História, formam professores que atuarão, em sua grande maioria, na Educação Básica. Esse elemento remete novamente à necessidade de diálogo entre as ciências de referência e a escola básica. Nesse sentido, também há uma necessidade política de pensarmos para além da ciência de referência e assumir nossa responsabilidade na formação do professor que atuará na Educação Básica, principalmente na escola pública. O professor a formar necessita conhecer o conteúdo a ser ensinado, mas também precisa aprofundar seus conhecimentos sobre como ensinar conteúdos no contexto escolar ou em outro espaço de educação não formal.

Pelo que foi exposto, podemos concluir que as pesquisas em Ensino de História têm revelado que muito se tem avançado para a compreensão de políticas e práticas para o Ensino de História, tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio e, conforme Lana Mara de Castro Siman defendeu, em sessão realizada no X ENPEH, em 14 de outubro de 2013, a área do ensino de história já se constitui no Brasil como “campo científico”, no sentido formulado por Pierre Bourdieu.

Contudo, a referida pesquisadora também alertou para o fato de que o trabalho de pesquisa na referida área ainda se apresenta fragmentado, apontando como desafios atuais a necessidade de promoção da organicidade temática dos grupos com necessária solidez teórico-metodológica, de realização de articulações interinstitucionais mediante redes de pesquisadores, emprego de abordagens fundadas em diferentes escalas, encontros interdisciplinares e produção de obras coletivas.

Esses desafios internos à constituição da área foram ampliados e aprofundados mais recentemente, quando políticas curriculares oficiais propõem e aprovam reformas que substituem a organização disciplinar por áreas de conhecimento nas quais se articulam componentes curriculares das diferentes disciplinas e com caráter opcional.

Esse fato coloca em xeque a legitimidade das disciplinas nos currículos da educação básica e, no que se refere à História, a sua própria presença no currículo.

Essa situação tornou-se mais complexa a partir do momento em que foi aprovada em 2017 a Lei n. 13.415/2017, que reforma o Ensino Médio, e em que foram publicados os documentos finais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). A definição de um currículo organizado por áreas de conhecimento e a orientação de que os conteúdos das disciplinas História e Geografia sejam oferecidos como optativos no contexto da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, entre outras, tem provocado fortes reações e incertezas sobre encaminhamentos futuros e sobre a revogação do direito dos estudantes à aprendizagem da História.

Além de indicadores da crise que é vivenciada na sociedade brasileira, esses fatos apresentam indícios claros de disputas  travadas na área educacional e, mais especificamente no que se refere ao ensino de História, disputas dentro da comunidade disciplinar dos historiadores sobre a legitimidade e relevância dos conhecimentos selecionados como aqueles que devem ser ensinados na educação básica, ou dizendo de outro modo, aos quais os estudantes têm direito ao acesso. E, também, sobre o reconhecimento de quais profissionais detém autoridade para definir uma proposta curricular para a disciplina história. Além disso, esse quadro de disputas se desenvolve em um contexto no qual as lutas para a implementação da Lei n. 11.645/2008 tem avançado, mas ainda encontra muitos desafios face à dimensão do esforço a ser realizado, inclusive nos currículos das instituições de ensino superior.

Esse conjunto de mudanças, boa parte das quais implementada sem suficiente debate com a sociedade e os especialistas, gera uma situação de irresignação na comunidade de professores e pesquisadores do Ensino de História e de outras disciplinas, compondo o quadro de litígios curriculares que tendem a fazer com que o debate continue na ordem do dia, quadro este que inspira a temática do presente evento.

Nesse sentido, debates têm ocorrido e são necessários para a discussão das implicações cognitivas e políticas dessas medidas para a formação dos cidadãos brasileiros, principalmente no que se refere à privação do conhecimento do passado com a possível retirada da disciplina de História dos currículos escolares.

Nesse contexto, a realização do XII Encontro Nacional de Pesquisadores em Ensino de História mostra-se muito oportuna e necessária ao criar espaço para que pesquisadores que atuam diretamente com pesquisas sobre o Ensino de História possam refletir sobre as repercussões políticas e culturais que podem vir a ocorrer nessa área, configurando novas problemáticas de pesquisa.

Entendemos que se torna muito potente a oportunidade criada por este Encontro para que os pesquisadores discutam suas teorizações e encaminhamentos metodológicos para a construção de seus problemas e objetos de pesquisa, podendo então avaliar e afirmar a relevância do ensino de história, não como objeto de pesquisa, mas sim como campo de conhecimento.

As pesquisas em discussão poderão contribuir para a compreensão do impacto das reconfigurações curriculares no âmbito das políticas e das práticas que cotidianamente são produzidas nos espaços escolares, seja como demandas pela inserção da história dos grupos historicamente silenciados, seja pela tentativa de negação do direito à memória e ao passado aos sujeitos em formação. Importa dizer que não possibilitar conhecer o passado pode significar a violação das possibilidades de identificação cultural necessárias para o desenvolvimento de uma consciência crítica e cidadã. O debate sobre desafios e perspectivas do ensino de História como campo de conhecimento contribuirá também para promover a afirmação e organicidade temática dos grupos de pesquisa existentes com necessária solidez teórico-metodológica, estimular a realização de articulações interinstitucionais mediante redes de pesquisadores, encontros interdisciplinares e produção de obras coletivas. Contribuirá, também para que possamos desenvolver argumentos nos embates a serem travados em relação ao estatuto dessa área de conhecimento nos currículos dos espaços educativos escolares e não escolares.

No décimo encontro foram apresentados aproximadamente duzentos trabalhos e no décimo primeiro foram apresentados cerca de cento e dez trabalhos, representando a atual produção de conhecimento sobre ensino de História, do Brasil e da América Latina. Esses dados demonstram a importância de reuniões científicas para o desenvolvimento das linhas de pesquisa e para a socialização desses resultados de pesquisa, uma vez que a cada encontro são divulgadas por mídia impressa ou digitalizada.

A realização do XII Encontro Nacional de Pesquisadores do Ensino de História no Estado de Mato Grosso representa, também, uma possibilidade de acesso ao evento por estudantes de Programas de Pós-Graduação em História e em Educação, de licenciatura em História, bem como de docentes da educação básica interessados. Acreditamos que a participação em eventos nacionais consolidados sempre contribui para a qualificação dos debates e estudos que vêm sendo desenvolvidos na área.